3. BRASIL 9.1.13

1. O PODER OCULTO DE ROSE
2. SUA EXCELNCIA, O CONDENADO
3. DEVERIA SER EVITADO

1. O PODER OCULTO DE ROSE
A agenda de Rosemary Noronha, a amiga de Lula, revela sua influncia no Banco do Brasil, nos fundos de penso e no trato com empresrios poderosos.
RODRIGO RANGEL E DANIEL PEREIRA

     No era bem o que parecia. Quando o nome de Rosemary Nvoa de Noronha veio a pblico com a deflagrao da Operao Porto Seguro, da Polcia Federal, a amiga ntima do ex-presidente Lula e ento chefe do escritrio da Presidncia da Repblica em So Paulo no passava de uma petequeira. A expresso, cunhada pelo ex-deputado Roberto Jefferson para designar funcionrios pblicos que se deixam corromper em troca de ninharia, parecia feita para ela. Rose, como  conhecida, foi acusada de integrar uma quadrilha especializada em fraudar pareceres oficiais para beneficiar empresrios trambiqueiros. Defendia os interesses dos criminosos no governo e, em contrapartida, tinha despesas pagas por eles  de cirurgia plstica a prestaes de carro. A verso da petequeira foi providencialmente adotada pelo PT. Rose, ventilou o partido, agiria apenas na arraia-mida do governo e sem nenhuma relao com a sigla. Eis uma tese que os fatos vm insistindo em derrubar.
     No ms passado, VEJA revelou que a amiga de Lula usava o cargo para agendar reunies com ministros de estado: abria as portas, inclusive de gabinetes no Palcio do Planalto, a interesses privados. Agora, descobre-se que sua rea de atuao abrangia tambm setores de oramentos bilionrios, como o Banco do Brasil (BB) e o fundo de penso de seus funcionrios, a Previ. Rose, a petequeira, participou ativamente das negociaes de bastidores que definiram a sucesso no comando tanto do BB quanto no da Previ, defendeu pleitos de caciques do PT junto  cpula do banco e atuou como lobista de luxo de empresrios interessados em ter acesso  direo e ao caixa da instituio. Sua agenda de compromissos como chefe do gabinete da Presidncia em So Paulo, obtida por VEJA, mostra que, graas  intimidade com o ento presidente, a mulher que num passado no muito remoto era uma simples secretria se transformou numa poderosa personagem do governo Lula. Com integrantes da cpula do BB, em cujas dependncias funcionava o gabinete que chefiava, suas audincias eram corriqueiras. De 2007 a 2010, foram pelo menos 39 reunies com ocupantes de postos importantes da hierarquia do banco. Apenas com vice-presidentes do BB, ela se reuniu 28 vezes. A explicao para tantos encontros: Rose usava a proximidade com Lula para influir nas decises que envolviam o Banco do Brasil, inclusive sobre quem deveria ser escolhido para ocupar cargos de direo. Ela era frequentemente procurada e bajulada pela cpula da instituio, interessada em fazer com que seus pleitos chegassem ao ex-presidente da Repblica.
A Rose levava as demandas institucionais do banco para o presidente. Esse contato direto foi muito positivo, admite Ricardo Oliveira, vice-presidente do BB at o ano passado e at hoje um dos mais fiis aliados do presidente do banco, Aldemir Bendine. A agenda de Rose registra dezesseis reunies com Oliveira. Ele conta que a lista de servios que ela prestou  cpula da instituio incluiu misses espinhosas. Segundo Oliveira, Rose foi acionada, por exemplo, como ponta de lana da ofensiva destinada a convencer Lula a autorizar o BB a comprar a Nossa Caixa, um negcio de 5,3 bilhes de reais. Prestigiada, operou no processo que resultou na escolha do prprio Bendine,  em 2009, para o comando do banco. Na ocasio, intercedeu junto a Lula por dois candidatos ao posto: Bendine e Ricardo Flores, petista que ocupava uma das vice-presidncias da instituio. Preterido, o companheiro Flores  sempre com a providencial ajuda de Rose  ganhou a presidncia da Previ, fundo de penso que tem uma carteira de investimentos de 150 bilhes de reais. Flores e Rose se tornaram amigos  mas s at a Operao Porto Seguro estourar. Agora, ele diz: Eu no me lembro dessas audincias com a Rose. Bendine, embora no tivesse seus encontros registrados, tambm costumava se reunir com ela, mas preferia deixar os assuntos mais comezinhos a cargo de Ricardo Oliveira, seu fiel escudeiro. Na luta por poder dentro do banco, Rose chegou a costurar um acordo, jamais cumprido, pelo qual Flores sucederia a Bendine no comando do BB. O fracasso do acerto acabou por minar a unidade do grupo. Bendine e Flores viraram inimigos figadais. Para refrear a guerra, a presidente Dilma Rousseff demitiu Ricardo Oliveira do BB e Ricardo Flores da Previ. Em troca do acesso privilegiado a Lula, Rose cobrava um tratamento  altura de seu prestgio. Pedia ingressos para shows, eventos em resorts e almoos em restaurantes caros patrocinados pelo banco. Mas no era s. A investigao da PF j havia revelado um contrato de 1,2 milho de reais firmado sem licitao entre uma subsidiria do Banco do Brasil e uma empresa de fundo de quintal registrada em nome de familiares da ex-secretria.
     Agora, sua agenda d pistas que podem ser teis  polcia: no mesmo perodo em que o contrato era negociado, Rose teve reunies, no gabinete da Presidncia, com funcionrios do banco encarregados justamente da rea onde ela arrumou a boquinha  entre eles, Jos Salinas, vice-presidente de tecnologia do BB at junho de 2010. A pedido do amigo e ex-ministro da Casa Civil Jos Dirceu, Rose chegou a advogar pela permanncia de Salinas no posto. No foi atendida  ningum ganha todas. Mas o pupilo de Dirceu no ficou na chuva. Salinas hoje despacha em Nova York como gerente regional do BB na Amrica do Norte. Em nota, o Banco do Brasil afirmou que a relao da instituio com Rosemary Noronha sempre foi institucional.
     A agenda de Rose mostra suas incurses em outras reas sensveis. Ela registrou, por exemplo, um encontro em maro de 2009 com o ento ministro da Advocacia-Geral da Unio (AGU), Jos Antonio Dias Toffoli, companheiro petista nomeado depois para o Supremo Tribunal Federal  no registro, fez constar que seria uma audincia para despacho. Os apontamentos revelam certa proximidade de Rose com Toffoli: alm de marcar presena em sua posse no Supremo, ela recebeu, em So Paulo, o chefe do gabinete do ministro no tribunal. Chama ateno a diversidade de reas por onde Rose transitava. E as suspeitas decorrentes da so inevitveis.  de indagar, por exemplo, por que a chefe administrativa do gabinete presidencial em So Paulo despachava com dirigentes de fundos de penso de estatais. Com Newton Carneiro, diretor administrativo e financeiro da Petros, o multimilionrio fundo dos servidores da Petrobras, foram cinco reunies entre 2009 e 2011.
     Nesse mesmo perodo, houve outros dois encontros com um emissrio da presidncia da Funcet fundo de penso dos servidores da Caixa Econmica Federal.
     As reunies com empresrios, muitos deles com interesses diretos no governo, eram igualmente frequentes. Com aval de Braslia, Rose se encarregava at de dar as boas-vindas a empresas estrangeiras recm-chegadas ao pas. Foi assim com a Boiron, multinacional do setor de medicamentos, cuja representante no Brasil se reuniu duas vezes com a ex-secretria em 2009. A empresa francesa, com negcios em oitenta pases, diz que foi recebida por Rose para apresentar o seu projeto para o Brasil. H? Isso mesmo. O rol de compromissos inclui ainda representantes de uma companhia japonesa, bancos privados, empresas areas e associaes empresariais. Coisa digna de ministra de estado. Petequeira? 

AGENDA LOTADA
Os compromissos de Rosemary Noronha incluam reunies regulares com a cpula do Banco do Brasil, dirigentes de fundos de penso e integrantes do alto escalo do governo federal.

BANCO DO BRASIL  Entre 2007 e 2010 39 reunies
PETROS  Entre 2009 e 2011 5 reunies
FUNCEF  Entre 2009 e 2010 2 reunies
AGU Advocacia-Geral da Unio  Em 2009 2 reunies

COM REPORTAGEM DE HUGO MARQUES


2. SUA EXCELNCIA, O CONDENADO
A posse na Cmara do petista Jos Genoino, sentenciado por corrupo ativa e formao de quadrilha no julgamento do mensalo,  legtima do ponto de vista legal, incua na prtica e vergonhosa sob todos os aspectos.
HUGO MARQUES

     O PT j mostrou ter grande dificuldade para reconhecer seus erros  e uma facilidade ainda maior para repeti-los. Na semana passada, o ex-presidente do partido Jos Genoino deu mais uma prova disso ao assumir um mandato de deputado federal na desconfortvel posio de condenado da Justia. Quer dizer, desconfortvel para os outros. Ele mesmo se declarou perfeitamente  vontade na situao: Tenho a conscincia serena e tranquila dos inocentes. Ao contrrio do que costuma ocorrer com os inocentes, porm, ele ter em breve de passar as noites na cadeia, como determinou o Supremo Tribunal Federal. O tribunal tambm ordenou que, como os demais deputados condenados no julgamento do mensalo, Genoino deve perder o mandato to logo sejam julgados os ltimos recursos do processo, o que deve ocorrer neste ano. Assumir um mandato nessas condies no traz nenhuma proteo legal ou benefcio para o petista (desconsiderando,  claro, os 26.700 reais de salrio e os 27.700 reais de ajuda de custo que ele receber por ms). Tampouco a atitude configura ilegalidade e certamente no visa a levar nenhuma contribuio ao Legislativo (que projetos ou ideias poder apresentar um deputado condenado por corrupo ativa e formao de quadrilha pela mais alta corte do pas?). A posse de Genoino tem como consequncia apenas o constrangimento que ela provoca  para o Congresso e para os brasileiros que se envergonham de ver enxovalhadas a tica e as instituies, prticas nas quais o PT se habituou a reincidir.
     Embora a cpula do partido tenha apoiado a deciso de Genoino, apenas quatro deputados deram as caras na solenidade em que ele assumiu a vaga do petista Carlinhos Almeida, empossado prefeito. O que era para ser uma demonstrao de solidariedade, porm, acabou virando um desfile de tristes figuras. Posaram ao lado de Genoino seu irmo Jos Nobre Guimares e os deputados Jos Mentor e Ricardo Berzoini  todos protagonistas de escndalos recentes. Berzoini deixou a presidncia do PT em 2006, depois que um grupo de aloprados do partido tentou comprar, com dinheiro sujo, um dossi fajuto contra adversrios. Mentor foi investigado no mensalo. J Guimares, futuro lder do PT na Cmara, ficou famoso por causa do assessor que foi preso ao tentar embarcar em um voo com 100.000 dlares escondidos na cueca.
     Dois dias antes da posse de Genoino, Joo Paulo Cunha, outro deputado petista prestes a perder o mandato por deciso do Supremo, discursava como estrela principal na posse do correligionrio Jorge Lapas na prefeitura de Osasco. No palanque, o ex-presidente da Cmara, condenado a nove anos de priso, falou como se a vitria fosse dele. Cunha era o candidato inicial do PT na cidade nas ltimas eleies, mas teve de deixar o preo diante da condenao no julgamento do mensalo. At o ex-tesoureiro Delbio Soares  apontado em pblico pelos petistas como o nico responsvel pelo esquema  continua prestigiado no PT. Conserva, inclusive, o direito de publicar artigos na pgina que o partido mantm na internet. Ao longo do caminho, o PT abandonou bandeiras e algumas virtudes da esquerda. Agora, v-se que ficaram na estrada tambm algumas prticas. A da autocrtica, por exemplo, est fazendo uma tremenda falta. 


3. DEVERIA SER EVITADO
A destruio em Xerm, no Rio de Janeiro, ao p da regio serrana,  a repetio anual de uma tragdia provocada pelas chuvas e pela negligncia das autoridades.
HELENA BORGES

     Era de esperar que, depois da tragdia de dois anos atrs, quando mais de 900 pessoas morreram em decorrncia das chuvas de janeiro na regio serrana do Rio, as autoridades tivessem o cuidado de evitar a repetio da calamidade. Os velhos argumentos de sempre, ancorados nos cortes oramentrios, no deveriam paralisar as aes do poder pblico, transformando as promessas de dramas anteriores em cinismo. E, no entanto, o imprio do descaso associado ao desdm voltou a abandonar os moradores de um pedao do pas atavicamente exposto s tempestades. Ao p da Serra dos rgos, na porta de entrada do pedao destrudo h dois veres, o pobre distrito de Xerm, em Duque de Caxias, foi o epicentro de uma nova estao de estragos. Ali, na madrugada da quinta-feira 3, deu-se o resultado previsvel da negligncia. Depois de uma chuva excepcionalmente forte, o rio que corta Xerm subiu muito rpido, arrasando 200 casebres, alguns erguidos sobre colunas de cimento  beira dgua. Pelo menos uma pessoa morreu, outra permanece desaparecida e 300 ficaram desabrigadas. Cinco pontes foram destrudas. A gua deixou um rastro de lama de mais de 1 metro de altura que se estendia por quarteires e sobre o qual se multiplicavam urubus, moscas-varejeiras, ratos e larvas. Com a coleta de lixo paralisada nos ltimos trs meses por falta de pagamento, 45.000 toneladas de entulho transformaram a cidade em um aterro sanitrio a cu aberto.
     A lama e o lixo de Xerm so, agora, o triste retrato da inpcia. A lista de providncias bsicas para impedir a repetio de catstrofes  conhecida: mapear as reas de risco, remover seus moradores, impedir ocupaes irregulares e investir em obras de conteno de encostas e sistemas de alerta. Nada disso foi feito em Duque de Caxias. Na hora do medo, apenas a solidariedade entre vizinhos funcionou, como sempre tem funcionado,  margem das autoridades. O cantor Zeca Pagodinho, o mais conhecido morador das redondezas, acolheu desabrigados em seu stio, depois de percorrer as reas devastadas a bordo de um quadriciclo. No fosse a corrente de solidariedade, a governanta Marinete Nunes de Novaes, de 47 anos, teria sucumbido. Fui prensada pela gua contra o porto de casa, conta. Fizeram uma corrente humana para me resgatar. Na semana passada, descobriu-se tambm que Duque de Caxias no era mapeada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministrio da Cincia e Tecnologia. A explicao: como no registrou mortes no passado, a cidade no estava entre as prioridades nacionais da Defesa Civil.
     O roteiro de erros  indcio de que, para os governantes, as mortes e a destruio causadas pelas chuvas sazonais j se tornaram parte do calendrio, assim como o Carnaval ou a Pscoa  e, por inelutveis, so tratadas com lenincia oficial. A presidente Dilma Rousseff chegou a proibir cinco ministros de sair de frias neste ms, para que pudessem dar declaraes e anunciar providncias quando as chuvas chegassem, mas no disse palavra sobre o fato de o ministro da Integrao, Fernando Bezerra, ter investido apenas um tero dos 5,7 bilhes de reais reservados em 2012 para a preveno de desastres, segundo levantamento da ONG Contas Abertas. Tambm nada foi dito sobre o fato de que, ainda hoje, menos da metade das reas de risco do pas  monitorada.
     Na regio serrana do Rio, h uma extensa lista de promessas no cumpridas, que inclui o desassoreamento dos rios, a reconstruo de pontes e bairros inteiros e a remoo de 1400 famlias de zonas de risco. Em Angra dos Reis, no litoral, at hoje no ficaram prontas as obras de conteno de encostas anunciadas em meio ao luto pelos 53 mortos no rvellion de 2010. Na cidade, a segunda mais afetada pelas cheias da semana passada, mais de 2000 pessoas tiveram de sair de casa para no ser arrastadas pela gua. O diretor do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres da Defesa Civil, Rafael Schadeck, diz que a situao melhorou e cita o sistema de sirenes e alerta por mensagens de celular, posto em prtica neste ano em alguns locais de forma ainda precria. Evitamos muitas mortes, o que  extraordinrio.  muito pouco. A sucesso de fatalidades, ano aps ano, e nos mesmos lugares, impede qualquer tipo de celebrao.
COM REPORTAGEM DE NATHLIA BUTTI


